Dia 19 de maio foi um dia muito importante para o Coletivo Onírico, inauguramos enfim, o Estúdio-Túdio e a CasaAsa! Explico: a CasaAsa de Cultura é o nosso espaço na cidade de Vinhedo-SP.
Além do Coletivo Onírico, este espaço
abarca também o Estúdio-Túdio, idealizado pelo amigo/administrador/ marceneiro/showman/faz-tudo,
Raul Leite (vulgo Rauzinho). Nessa noite, vários musicos participaram da Jam Session, Inaugurando o estudio com chave de ouro.
Os convidados contribuiram com o "Chá de panelas e fitas", trazendo utensílios domésticos e mídias diversas
que serão fundamentais para os
próximos encontros na CasaAsa.
Foram exibidos os vídeos ja produzidos pelo Estúdio-Túdio como "Moreno Loro na Marcenaria" e também o vídeo da oficina de Intervenção Urbana, editado pelo parceiro Gustavo Shiezaro. Houve a ilustríssima estréia das Palhacetas com o numero "Mierhold us"!
Esse encontro é o primeiro de muitos, afinal a CasaAsa ja é um espaço de intercâmbio de ideias , ensaios e exposições entre outras. Nós do Coletivo Onírico e do Estúdio-Túdio agradecemos imensamente a todos que estiveram presentes.
Conhecemos a biomecânica de Meyerhold através de uma oficina que realizamos junto ao Teatro de Maquinária, do RJ. Desde então, os pressupostos deste russo (que diga-se de passagem transformou o teatro da primeira metade do século XX) tem sido integrado ao nosso treinamento, e mais do que isso, tem fomentado nossa produção.
Sob o olhar cinematográfico e sensivel da Maria Clara ( sim, nós temos uma garota audiovisual no grupo!) estamos encabeçando um video em alguns espaços da cidade. Dessa forma, engendramos a biomecânica com outros dois eixos de pesquisa que ja possuímos: a intervenção urbana e a pesquisa com o lixo.
Gravação na Avenida Independência dia 28/05.
Gravação na Represa dia 28/05
"(...) entramos todos pelo grande portão que recebe diariamente uma dúzia, talvez duas, três (??), ou sabe se lá quantos catadores por dia. Sempre me sinto estranho em ambientes que não são os meus. Estar na Cooperativa me faz ficar inibido, tenho medo de parecer o 'garoto- branco-artista' tentando falar de problemas sociais. A Lis é a primeira pessoa que interage com alguem, ela diz um "olá" timido para um casal a esquerda do portão. Eles iniciam uma conversa conosco, enquanto reviram um grande saco contendo dezenas de garrafas pets."
( Diário de anotações do Henrique, 07/05).
Gravação na Cooperativa de Reciclagem, com os camaradas Rafael Carvalho
e Danilo Bracallentti nos dando suporte em 07/05.
O trabalho que Meyerhold desenvolveu ficou conhecido como a "Teoria Biomecânica". Nosso video é uma sequencia da partitura conhecida como "A Pedra". Esta ação faz parte dos "Dezesseis Estudos", um sistema de exercicios criado por Meyerhold que fazem o ator passar por todas as situações expressivas. Nesta ação, assim como as outras criadas por ele, existe a pretensão de transformar o corpo do ator em uma ferramenta, com os movimentos amplos, exagerados e tensos.
O contexto social em que Meyerhold viveu foi fundamental para a criação de sua obra. O teatro na pós revolução havia regredido muito, enquanto outros setores da sociedade soviética estavam em um processo rápido de industrialização. Meyerhold pensa que os mesmos fatores que estavam guiando a vida soviética deveria guiar o teatro também. Nesse sentido, ele se baseia nas metodologias cientificas que prevaleciam na indústria e na cultura soviética ( taylorismo e reflexologia) para criar uma nova forma de fazer teatro.
Meyerhold’s production of Nikolay Gogol’s Revizor (The overnment Inspector), Moscow, 1926.
Algumas curiosidades:
- Meyerhold foi morto pela ditadura stalinista;
- Meyerhold foi discipulo de Stanislavsky, integrando o Teatro de Arte de Moscou;
- Observando o movimento dos operários nas fabricas, Meyerhold formulou parte de sua teoria biomecânica, baseado no menor esforço e na precisão dos movimentos;
- Os trabalhos artísticos de Meyerhold estiveram banidos até 1955, até ser reabilitado pela antiga URSS;
- O video esta sendo gravado em 3 locações na cidade de Vinhedo: Cooperativa de Reciclagem, Represa e na Avenida Independência.
- Maiores informações voce encontra acompanhando nosso blog e também na pagina do Teatro de Maquinaria: www.teatrodemaquinaria.com
Abaixo, video do 1° dia de ensaio no qual retomamos a partitura da Pedra em 09/04:
Referências:
GORDON, Mel "A Biomecânica de Meyerhold" (in) The Drama Review (T57), 1973. Tradução Maria Elisabeth Biscaia Jhin
E quase tudo começou
com assim:
O Coletivo Onírico
lhes convida a participar de uma Intervenção Urbana* que sairá
pelas ruas expurgando seus anseios, desejos, questões, inquietações,
revoltas , vergonhas...
Teremos como mote:
O SONHO...
O
EXCESSO!
O
RISCO!..
Ou começou bem antes, com a participação de Lis na oficina de Nina Caetano. Ou antes ainda, com o desejo de tomar as ruas, provocar o sonho acordado, e com a vontade de chaqualhar os corpos viciados no previsível e morno dia a dia. Para, além de destrinchar os temas que permeiam nossa próxima montagem e também para trillhar o caminho para nossa identidade
enquanto grupo, motivos não faltavam para justificar essa vivência.
Sobre Sonho Risco e Excessos.
Elaboramos então uma oficina / vivencia que tratasse desses temas. E depois de muitas reuniões para elaboração da mesma, muitas datas adiadas, convite feitos e a anciedade, e como diz Henrique: "Penso que o coletivo faz tudo ao mesmo tempo: atua e produz, canta e confecciona, mora-ensaia-trabalha, pinta o cenário e controla as finanças."
E por que não uma oficina de intervenção urbana?
Acreditamos que informação e formação compartilhada é multiplicada e aperfeiçoada por todos que dela se apropriam. Com essa oficina / vivência, não queriamos passar informações , definir ou ensinar o que vem a ser uma “intercenção urbana”, conceito que a cada dia toma uma amplitude significativa. A idéia era explorar ao maximo esse tres temas e sobre eles criar imagens , figuras , situações.
Encerrariamos com a exposição em praça pública . Também queriamos coletar materiais e experiência pra nossa próxima criação o Ketelyn, aí nada melhor que compartilhar nossos anseios
e visoes desses temas com outros artistas e amigos.
E Finalmente chegam os inscritos e as atividades. Para adentrar aos
temas passamos por Exercicíos de relaxamento conduzido, ciranda, cantoria e exercicios de espacialidade. Tambem exibimos trechos de filmes como Coraline de Tim Burton, Waking Life
de Richard Linklater, História das Coisas de Annie Leonard, material que vém nos acompanhando nos processos de criação do Ketilyn.
A partir daí duvidas e ideias compartilhadas estouram como pipocas.
Qual é meu sonho?
O que é sonho? Eu me arrisco pelo meu sonho? A busca incessante pelo
meu sonho gera hábitos excessivos? Pelo que eu me arrisco?
“ADeriva”
Com todas a ideias na cabeça saimos então as ruas e, agora, não se utilizando dela como um simples lugar de passagem, e sim deixando que ela e seus elementos nos conduzam as ações.
“Sairdo estado mental, partir para o corpo, formular todo esse
entendimento e devolve-lo como discurso artistico. Comunicar-se pela
imagem, pelos gestos, pelas subjetividades. Durante o exercicio de
pré-deriva, várias coisas interessantes surgiram: trabalhar no
plano médio, deslocar-me fora do eixo, descobrir arquetipos e
lugares interessantes.”
“Talvez o risco ainda seja o que mais mexeu comigo. E me fez pensar em toda azona de conforto que eu (nós) me (nós) encontro (encontramos). Não digo somente no privilégio de termos uma casa, um carro, um emprego... isso é saudável e, para muitos, exemplos e situações necessários. Mas dentro disso o risco talvez faça com que vivamos mais intensamente e isso pra mim é o que mais ficou e que penso em investir. Risco de ousadia, de mudança (seja grande ou pequena), do diferente, do novo, do “sempre prazer”...”
Comer grama, engatinhar na rua, se esconder em um arbustro, esperar o onibus em cima do ponto, conversar com os moradores, usar o poste como o mastro de um naviu, rolar enrolada num grande plástico e se quedar como um corpo morto. Tudo pode até que se diga o contrário ou mesmo se disserem , pra nós, ainda pode. Percebemos também o grande deserto que é a rua em um fim de semana. As pessoas evitam o risco preservando-se em seu lugar de conforto. Andando pelas calçadas ouvimos o mesmo som vindo de dentro das casas: Luciano Huck, Locução de futebol e similares, misturados ás xicaras postas nas mesas do café da tarde. Os moradores, em suas casas, preservam as grande praças sem ninguém.
E assim provocamos o ambiente urbano e publico e por eles fomos provocados.
As criações em Praça Pública.
No fim de semana seguinte seria mais, seria a praça em pleno Sábado, seria sabe-se lá o que, apesar do prévio combinado “circo ou feira dos horrores”.
E para isso criamos nossos motes e nossa vestimentas: Henrique Dutra (Super Huper), Lis Nasser (Mulé), Maria Clara (Mulher leiteira), Dinho (Urso Mágico) Ana Paula Piunti (Sereia do Agreste), Lia Nasser (Mulher Antenada); assim batizados por Lis. Também contamos com a
participação de Gustavo Schiezaro nas fotografias e Mariana
Schiezaro na defeza e proteção para caso ouvesse necessidade. Na praça também havia uma roda de capoeira e umas barraquinhas de cacarecos, o que caracterizava aquele ambiente como um espaço de convivência e não apenas de passagem.
E assim começamos, com todas as caraminholas na cabeça
e as borboletas no estomago, a procurar, à provocar e ser provocado,a ocupar e compartilhar
nossos sonhos. Eis algumas auto-descrições:
Eu estava, como a maioria dos performes, vestida com um
figurino feito de lixo, que compunha uma mulé, meio chechelenta, meio sensual, meio cômica.
Tinha uma placa bem grande com a pergunta
O QUE É A MULHER?
Tinha também uma caixa preta com os dizeres:
O QUE É QUE TEM NA CAIXA PRETA?
O MISTÉRIO DA ALMA FEMININA.
Na caixa tinha uma espécie de monóculo
pelo qual se via o reflexo do seu próprio olhar.
(lis)
É preciso criar um estado para ir para a rua. Eu me sentindo pouco a vontade, talvez indisposto corporalmente. A roupa também não ajuda muita, ela é bonita, mas é desconfortavel, tenho medo que ela caia ou rasgue. Estar disposto, arriscar, estar mais seguro, preparar-se, PRÉ - PARAR - SER = para ser, pensar antes, melhor. (Henrique)
E assim dominando o espaço,
houveram as mais diverss reações , muitas duvidas espressadas pelo público:
Eu, adornada de tetas feitas com garrafas
pet, oferecia o “leite que só a mulher dá” com uma lata na mão.
E recebia algumas respostas como: Voces são de alguma faculdade? É
pra arrecadar dinheiro , é por causa doa dia da mulher? Senti um
certo medo das pessoas em se aproximar muito. (Maria)
“O objetivo era bem egoísta, queríamos sentir a rua de uma forma não cotidiana e pessoal” (Henrique)
Um homem se sentindo provocado pela figura da Ana, a nossa Sereia na piscina de lixo, se sentiu a vontade para falar de seu amor.
“...tomado por todas aquelas manifestações e imagens, contou sua estória e me faz acreditar que por conta desse desabafo conseguimos modificar um olhar, neste caso,como uma reflexão que poderia estar a muito tempo em seus pensamentos como um grito...
aquele ambiente estava tão insano, de repente
aquela praça trouxe um conforto que o álcool trás à ele... E assim de tão confortante abriu seu coração e desabafou para mim.
Não tenho a certeza com relação ao olhar dele, mas o meucom certeza modificou! (Mariana)
Hove quem falou de seus sonhos, houve quem passou , quem escreveu quem desdenhou, hove de tudo naquele dia. Super homens , super mulheres , bagunçaram o olhar de um sábada de manha na cidade de Valinhos. O coletivo Onirico agradece a todos os participantes dessa vivencia que muito nos ajudou e somou na nossa história. E um agradecimento de Lis:
Gostaria de terminar esse relato, agradecendo a Nina
Caetano com quem fiz a Oficina: Como se Fabrica uma Mulher? Que além
de despertar e dilatar em mim esses questionamentos sobre o feminino
foi quem me propiciou uma primeira experiência com o Corpo
Instalação e a Intervenção Urbana. Quem quiser conhecer mais o
O Bosque dos Jequitibas tem cheiro de infância. Cheiro de marmita que meu pai fazia, do sorvete com a irmã no dia de receber cachê e pancaque da payot, que naquela época eu nem sabia que era tão caro. Enquanto conto/canto a história do capoeirista brasileiro ou da menina russa, conto também um pouco da minha história, escondida nas frestas do piso de madeira, nas cortinas rotas e na pintura gasta com a ação do tempo. A primeira vez que me apresentei no Carlito Maia eu tinha 10 anos.
Março de 2012, o Coletivo Onírico realiza sua primeira temporada, meio no susto, após inúmeros emails tentando contatar o poder público para conseguir pauta. Trocaram o prefeito, trocaram o secretário, só não trocaram o teto do pequeno teatrinho (é o mesmo de quando eu tinha 10 anos). A cidade de Campinas vive um momento crítico, todos os teatros estão fechados.
O Coletivo Onírico ocupa o único teatro público em atividade. Estar ali é resistir contra a ação do mundo contemporaneo em que vivemos, onde capitalizados e engendrados num ciclo vicioso de produção e consumo, as ações artisticas não encontram espaços e públicos para acontecerem. O Cine Windsor que ficava no centro, na General Osório (antes do advento cinemanoshoppingestacionamnetoepipoca) virou cinema pornô (!!!) até que um dia fechou. O Centro Cultural Evolução (berço de tantos artistas campineiros) também encerrou suas atividades. O Levante Cultura (movimento apartidário pela transformação da política pública cultural de Campinas) protestando contra os roubos efetuados pelo poder público, fez uma grande ação na Praça Correia Lemos, onde deveria estar o Teatro Castro Mendes. Mas, tristemente, a maioria dos que estavam presentes eram artistas e reporteres. E a população? Bom, o parque da cidade vizinha, onde a garota morreu, reabriu 15 dias depois com uma fila imensa de pessoas enlouquecidas para novas e emocionantes aventuras no país mais divertido do mundo (pelo menos é o que o marketing do parque diz). A garota estuprada ao vivo, em canal aberto no programa de TV, foi assistida por milhões de pessoas, que só se manifestaram na hora de escolher seu mais novo herói milionario, colaborando para que no ano que vem, seja realizado outra edição do reality show mais popular da TV brasileira.
A população não fez nada quando fecharam os teatro e cinemas. Mas fico pensando o que teriam feito se fechassem os shopings ou os estádios de futebol da cidade. E cada vez mais tenho a impresão que os valores estão distorcidos, e que o rito, o teatro, a arte do encontro que desde os tempos primitivos nortearam o movimento do homem interpretando e entendendo o mundo estão ficando a margem. Na grande sociedade do espetáculo (como bem definiu Debord), o espaço não é publico, é privado, é fabricado, facebookado, holiwodizado, alienado e ado a-ado cada um no seu quadrado.
O quadro "Em Cena" da EPTV (Globo - Campinas) entrevistou o Coletivo Onírico na ultima semana de sua temporada no Teatro do Bosque. Para ver a matéria, acesse o link do G1 noticias:
Na segunda feira, para finalizar o maravilhoso mês de março e também gravar nosso espetáculo na rua, nós do Coletivo Onírico, apresentamos o Catação de Historias na praça da Matriz de Valinhos. Fomos recepcionados por um público maravilhoso e ainda ganhamos uma publicação no Jornal da cidade!